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sábado, 20 de abril de 2013

ME SEPAREI POR AMOR E AINDA ACREDITO EM UM FINAL FELIZ PARA NOSSA HISTÓRIA

“Me separei por amor e ainda acredito em um final feliz para nossa história”

Mãe de três filhos, pós-graduada e apaixonada por um dependente químico, Polyana diz ter aprendido amar o próximo como ama a si

Polyana, pela segunda vez, é paciente secundária da dependência química. A primeira ela experimentou no papel de filha: “Aos 16 anos, meu pai morreu de overdose”.
A segunda, ainda está em curso. O marido, pai de dois dos seus três filhos, está internado para tratar o uso compulsivo de crack e cocaína.

Na primeira experiência, ela não compreendeu que o próprio comportamento poderia ser nocivo e precisava ser tratado. Agora, aos 35 anos, entende o conceito de codependente e diariamente comprova que o amor que sente pelo marido não pode ser transformado em ingrediente para a doença dele ou em gatilho para a ansiedade e depressão dela.

Hoje ela prepara o segundo livro sobre o assunto, com a experiência do blog "Amando um dependente químico". Todas as obras foram assinadas com o pseudônimo Polyana.
“Ainda acredito em um final feliz para a nossa história e esse otimismo que me persegue é muito 'poliano'”, diz ela, em referência ao romance infanto-juvenil do início dos anos 80, que acabou transformando o nome da protagonista em sinônimo para visão otimista.
“Sou formada, pós-graduada e casada com um dependente químico. É um problema que pode acontecer com qualquer um. Entendi que os dias de dores podem ser seguidos por dias de superação”, diz ela, que mora em Brasília e hoje trabalha para ajudar pessoas com histórias parecidas. Leia a entrevista.

A história com o seu pai, de alguma forma, interferiu na história com o seu marido?
Polyana: De alguma forma, acredito que sim. Meu pai usou droga dos 17 aos 51 anos, idade em que morreu por causa de uma overdose. Eu cresci vendo um pai alienado, depois alucinado e depois ausente. Não tinha uma noção exata, mas de certa forma avalio que esta experiência criou em mim uma tolerância às drogas. Ficou marcado em mim que tudo que eu não pude fazer por ele eu faria por outra pessoa. Tanto que conheci meu marido em um bate-papo virtual e desde o primeiro momento ele me disse que era usuário de cocaína. Eu morava em Brasília e ele nos Estados Unidos. Uma das primeiras perguntas que fiz foi se ele tinha algum vício. A resposta afirmativa poderia ter afastado outra pessoa, mas em mim despertou a curiosidade de saber mais sobre aquela história. Hoje tenho a certeza que já era o meu comportamento codependente, essa necessidade de salvar. Nos falávamos diariamente, por telefone, e surgiu algo mais. Óbvio que não era por causa da droga. Ele é admirável, inteligente, parceiro. Nos conhecemos em julho, em dezembro eu estava desembarcando nos Estados Unidos. Na minha cabeça, eu imaginava que o amor seria suficiente para tirá-lo do mundo das drogas.
 
E quando veio a constatação de que seu amor não era suficiente, como você ficou?
Polyana: Foram dias, anos, de muita culpa e frustração. Nos primeiros três anos, eu não sabia o que era codependência. Achava que todo o meu sofrimento era por culpa da dependência dele e não me dei conta que parei de viver. Vivia para isso. Ele passava momentos sem usar drogas e outros usando muito e quando vinham as recaídas eu pensava o que eu tinha feito de errado. É um peso nas costas. A gente não sabe que precisa de ajuda também. A vida fica parada, milimetricamente controlada, em sobressalto. ‘Será que se eu não fizesse aquela cara feia, ele não teria recaído?’ é só um exemplo dos pensamentos que eu tinha com frequência.

Quando você conseguiu mudar de postura?
Polyana: É uma luta diária. Eu amo o meu marido e há três semanas o deixei, por amor. Buscando ajuda para mim, compreendi que o impedia de arcar com as consequências do uso de droga pois assumia todas as consequências como falhas minhas. É uma postura doentia que atrapalha dos dois lados. Para um codependente, dizer não é mais difícil do que dizer sim e com isso você vai tolerando comportamentos abusivos. Do outro lado, o dependente também vai repetindo as condutas de abuso por não enxergar as consequências. É uma falsa cumplicidade que afunda os dois lados.

Neste processo, como ficaram seus três filhos?
Polyana: Tenho dois filhos com ele, um de 3 anos e um mais novo, de 1 ano. E uma menina mais velha, de 11 anos, de outro relacionamento. A mais velha já foi deixada de lado no início e, certa vez, em um dos grupos de apoio, me perguntaram se seria preciso ela começar a usar drogas também para ganhar a minha atenção. Minha ficha caiu. Separei o papel de esposa do papel de mãe. Meus outros filhos foram muito desejados e gerados em períodos de abstinência, em que eu já havia começado a estudar e a fazer tratamento para a codependência. A decisão atual de me separar foi por causa deles. Pela primeira vez, meu marido colocou em risco meus filhos e os levou, junto com ele, para comprar drogas. Não tolerei e me afastei. Ele procurou uma clínica e está internado. Eu ainda espero um final feliz para a nossa história, mas sei que ele é responsável pela própria recuperação.

Você não teve medo de ficar ainda mais culpada por causa do afastamento, com a sensação de que estava abandonando o pai dos seus filhos?
Polyana: Estudando codependência a gente se dá conta de uma coisa. Você conhece um ser humano, um só, que diz: olha, eu resolvi procurar ajuda porque a minha esposa me apoia demais’? Eu nunca vi e conheço milhares de dependentes. Estudá-os virou minha profissão e hoje como funcionária pública da secretaria de Justiça desenho projetos que foquem nas famílias. A recuperação deles não está nas nossas mãos. Tirar a culpa da costas não é uma opção egoísta. É amar o próximo como amar a si e isso quem prega não sou eu. Permitir que o dependente químico arque com as consequências é o único caminho para recuperação dele.

Você descobriu como cuidar de si sem abrir mão do apoio familiar, tão lembrado pelos psiquiatras como aspecto importante na recuperação do doente?
Polyana: Sou contra o abandono. Como eu apoio? Busquei ajuda para mim. Nos grupos a gente aprende a lidar com essas pessoas e entende que elas precisam de limites. Deixar que eles tenham responsabilidades é a forma mais eficaz de dizer que você confia nele pois acredita que ele é capaz. Fazer por ele é, indiretamente, dizer que ele não é capaz de fazer sozinho.

Você chegou a adoecer?
Polyana: A gente sempre adoece. Tive tremores, dor de cabeça, insônia, ansiedade e depressão. Parei minha vida. Se não me tratasse, não estaria inteira para este processo de recuperação que meu marido inicia. Sou mãe, apaixonada, mas sou mulher, tenho minhas vontades e meus sonhos. Se os projetos cuidassem mais das famílias, incentivando e orientado condutas assertivas, tenho certeza de que o número de finais felizes seria maior.

Fonte: http://saude.ig.com.br/minhasaude/2013-04-17/me-separei-por-amor-e-ainda-acredito-em-um-final-feliz-para-nossa-historia.html
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sexta-feira, 19 de abril de 2013

ASSUMIR QUE O FILHO É DEPENDENTE QUÍMICO É A PIOR COISA PARA UMA MÃE

“Assumir que o filho é dependente químico é a pior coisa para uma mãe”

Luisimar Alvares há 13 anos convive com um filho viciado, hoje em recuperação. Ela conta como a mudança de postura resultou em uma nova forma de encarar as drogas

Professora de adolescentes em Campinas (interior de SP), Luisimar Alavres encarava as drogas “como um problema dos outros” até encontrar maconha nas coisas do filho. Achou que era uma fase e que iria passar.
Foram 13 anos convivendo com os mais variados tipos de entorpecentes – crack, cocaína, ecstasy – e com a sensação de que só ela salvaria o filho.
“Dei espaço para o meu filho ser protagonista da própria recuperação”, diz ela, sobre a principal lição que aprendeu nos grupos terapêuticos que acolhem parentes dos dependentes químicos enquadrados no conceito de codependentes.
Hoje ela é voluntária do Amor Exigente (o principal grupo brasileiro voltado às famílias), continua dando aulas e vive o “só por hoje”, ensinamento vital para quem usa drogas e para quem ama e convive com um usuário.
Luisimar define um dia perfeito, como aquele que tem 24 horas “sem conflitos” ou “com conflitos solucionados” em 24 horas e agradece por ter se livrado do sabor “amargura” que tinha na boca quando contava a própria história. “Tenho orgulho da pessoa melhor que me tornei”.

Como você percebeu que a droga fazia parte da sua família?
Luisimar: Sou professora de português e as drogas sempre fizeram parte da temática das minhas aulas. Por estudar o tema, parecia que eu tinha uma imunidade a este problema. Foi então que meu filho, quando estava no 3º ano do ensino médio, começou a mudar de comportamento, ficou diferente, repetiu de ano. Eu só tinha visto droga em fotografias e achei um ‘matinho’ estranho nas coisas dele. Não reconheci na hora. Levei a uma delegacia próxima de casa e disseram que era maconha. No primeiro momento, não achei que era grave e aí os problemas começaram. Tinha certeza de que era uma fase, que iria passar. Ele tinha 16 anos. Hoje tem 29. Treze anos depois, ainda não passou. Maconha, cocaína, crack, ecstasy, tudo que você pode imaginar, passou na vida do meu filho e também fez parte da minha vida.

Quando você percebeu que o seu comportamento com ele precisava mudar?
Luisimar: Desde o início, eu frequentei grupos de pais e familiares de dependentes químicos, nas reuniões do Amor Exigente. Mas não me reconhecia naquele ciclo da droga, não sentia que participava ativamente da dependência do meu filho. Caí no jogo da culpa e, de forma inconsciente, o meu comportamento alimentava o comportamento do meu filho e vice-versa. Você passa a ser feliz só quando ele é feliz. Eu passei a querer tomar atitudes por ele. Fiquei com a sensação de que eu, só eu, era capaz de salvá-lo. Mas quando você olha a dependência de dentro do olho do furacão, um ponto crucial passa despercebido: o dependente químico, sem perceber, busca o conflito para justificar o uso de drogas. Então, por mais que eu me esforçasse para fazer da minha casa um ambiente de paz, do nada, uma briga explosiva acontecia.
Eu achava que a solução e o controle estavam nas minhas mãos. A sensação era a mesma de apertar uma gelatina. E essas tentativas frustradas de manter uma paz falsa, frágil, só me davam culpa. Passei a atender a todas as vontades do meu filho. Quando ele se trancava no quarto, achava que ele estava seguro e quase não respirava na sala. Levantava 200 vezes, encostava o ouvido na porta para sentir que estava tudo bem. Então, vinha o vendaval violento. Ao meu filho, a mensagem era de que ele tinha a justificativa que queria para sair de casa e passar dias e dias sem aparecer, só usando drogas. A mim, restavam a culpa e a falsa ideia de que, em uma próxima vez, eu faria diferente e a briga não aconteceria.

A sensação de culpa também atrapalhava a consciência de que você precisava mudar?
Luisimar: Assumir que o filho é dependente químico é pior coisa para uma mãe. É uma doença considerada um problema de caráter. Se ele tem rinite, todo mundo protege. Quando é usuário de droga, não há a compreensão de que se trata de uma doença. Trata-se como uma falha pessoal, da criação. A negação é o primeiro passo e eu fiz coisas horríveis, como ir até a casa de um amigo dele e aos berros dizer para a outra mãe que ela era responsável por tudo de ruim que tinha acontecido com o meu filho. Foi quando esgotei as minhas possibilidades que entendi que não dependia de mim. Ao contrário. Se ele não tivesse o papel principal no processo de recuperação dele, não iríamos sair do lugar. A codependencia, um termo que eu só aprendi depois, exacerba o amor e você fica cega. Você tem recaídas igual ao usuário de droga. É preciso entender quais são os limites e esse entendimento é doloroso, mas também libertador.

Isso significa que você precisou se afastar do seu filho?
Luisimar: Quando os problemas com as drogas agravaram, eu tinha acabado de separar do meu marido. Meu filho foi para a internação compulsória (contra a vontade do usuário) e é uma sensação horrível. Você se sente sozinha, culpada. Ele saiu da primeira internação e voltou para as drogas. Desde então, foram repetidas idas e vindas. Não digo que me afastei, mas precisei mudar de postura. Aprendi a dizer e a entender que ou ele mudava de comportamento ou ele mudava de casa. Isso porque, em meio às chantagens, ele me dizia que se eu o deixasse fumar maconha dentro de casa, ele não iria mais embora. Não cedi. E defini o que queria para dentro da minha casa. Ele foi internado quatro vezes e nenhuma deu certo porque, em todas, ele havia decidido pelo tratamento por minha causa e não por causa prória. Quando eu e o pai dele deixamos espaço para ele ser protagonista da própria história, a coisa mudou de figura.

Seu filho está limpo (sem usar drogas) há 10 meses. Honestamente, você voltou a confiar nele?
Luisimar: Eu confio na minha postura e sempre quando entendo ser cabível dou um voto de confiança a ele. Sei que ele esta se segurando, está apaixonado, resolveu morar com uma moça e tenho orgulho da vida com limites que ele leva agora. Mas também não sou ingênua e sei da dificuldade que ele tem de se organizar a longo prazo. Não é falta de confiança, mas não me frustro mais quando ele planeja, por exemplo, pagar uma conta em 10 prestações e lá na quarta ou quinta acaba recorrendo à minha ajuda porque se atrapalhou. Um dia de cada vez. Para ele e para mim.

O seu amor por ele mudou?
Luisimar: Fragilidade amorosa eu não tenho mais, mas meu filho é o maior amor que eu sinto no mundo. A passionalidade eu perdi e ele compreende isso. Ele me reconhece como alguém segura, autônoma, sabe que pode contar comigo, sabe do meu amor e sabe que por ele eu me obriguei a ser uma pessoa melhor. O fato dele ter me tirado o chão fez com que eu buscasse um solo mais forte, menos arenoso. Meu filho sabe que para conviver com isso ele não pode me ferir. Eu não sinto mais um sabor amargo na minha boca ao contar essa história.

Você chegou a adoecer fisicamente nesse período?
Luisimar: Dizer que não é mentira. Eu somatizo problemas na boca e na garganta, ranjo os dentes. É uma transferência inevitável. Você assiste o outro doente e quer adoecer também. Eu me sentia mal por estar bem. Viajar foi algo que eu nunca deixei de fazer, mesmo nos momentos mais turbulentos. Durante os trajetos, tinha crises de dores incríveis que agora são controladas. O “decolar” era complicadíssimo, ainda é. Mas é o meu prazer, momento em que eu relembro de cuidar de mim. Uma vida boa, que valoriza as pequenas coisas, é o maior presente que só eu posso me dar.

Fonte: http://saude.ig.com.br/minhasaude/2013-04-17/assumir-que-o-filho-e-dependente-quimico-e-a-pior-coisa-para-uma-mae.html
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quinta-feira, 18 de abril de 2013

ME SENTIA TAO SOZINHA E ABANDONADA QUE ACABEI ADOECENDO TAMBÉM

O pai de Isabella Moraes usou crack por 20 anos e ela desenvolveu anorexia e depressão. ‘Diziam que eu tinha de superar por ser rica e bonita’


Isabella Moraes é filha de um dependente químico em recuperação e quer mostrar que as drogas afetam inclusive as famílias ricas

Isabella, 37 anos, é herdeira de uma família de ricos empresários do Rio de Janeiro. Filha mais velha de João Flávio de Moraes, que já chegou a ocupar o posto de dirigente do poderoso grupo Supergasbras, ela diz ter pagado com a própria saúde o preço da história familiar ter o crack como um dos “longos capítulos”.

João Flávio usou a pedra por 20 anos e perdeu amigos e prestígio durante as compulsivas pitadas. Isabella assistiu a tudo.
“Me sentia tão sozinha e abandonada que acabei adoecendo também”, diz Isabella Moraes, que desenvolveu o transtorno alimentar chamado anorexia e a depressão, como uma espécie de “pedido de socorro” para ser vista pelos pais.
Sobrevivente da chamada codependência, ela diz estar em constante recuperação neste período de quase 8 anos em que o pai não tem mais recaídas nas drogas. Reuniu a experiência no livro “Agora é viver”, lançado no próximo dia 18 pela editora Rocco.
Nem todos da família gostaram da exposição da trajetória familiar (o pai é um dos apoiadores), mas Isabella avalia que trazer o assunto é uma forma de alertar que dinheiro não é vacina contra a dependência química.
 
“Também quero abordar o papel da família, a importância do cuidado dos parentes e não só dos dependentes químicos. Cansei de ouvir que eu tinha de superar (a depressão e a anorexia) por ser rica e bonita”, conta ela.

Cursando jornalismo e dividindo a experiência no blog “Somos todos iguais”, ela afirma que o sonho é se tornar uma porta-voz da causa. Leia a entrevista.

Você também adoeceu por causa do crack usada pelo seu pai sem nunca ter usado nenhum tipo de droga?
Isabella Moraes: Claro. Por causa da desestruturação familiar que eu vivi me sentia tão sozinha e abandonada que acabei adoecendo também, ainda muito pequena. Os filhos pagam o preço pelo uso de droga pelo pai ou pela mãe. Não há como uma criança crescer saudável em um lar onde não existem limites e o amor é dado de maneiras estranhas. Altos e baixos, cenas de uso de drogas, medos, assistir ao pai alterado... Isso não é ambiente para se viver, não é mesmo? Hoje, vejo que era o meu inconsciente querendo dizer aos meus pais: olhem, estou ficando doente, cuidem de mim...Hoje estou curada da anorexia e da depressão e após muita luta tenho uma vida feliz e saudável ao lado do meu filho.

As pessoas ainda ficam surpresas quando se deparam com histórias de famílias que, mesmo abastadas financeiramente, acabam envolvidas com drogas. Por que você acha que isso acontece?
Isabella Moraes: Porque as pessoas em geral não tem a menor noção de que entrar para o mundo das drogas não é uma questão de escolha e, sim, uma fraqueza. Uma fraqueza forte. A pessoa experimenta droga como se fosse tomar um remédio para aliviar a dor. Só que se ela for dependente química, pode acabar se viciando e aí o caminho muitas vezes é sem volta. Não é porque uma pessoa é rica ou bonita que ela é feliz. Se ela procurou as drogas, tenha certeza, ela apenas buscou preencher um vazio. Dizer ou acreditar que quem usa droga é um sem-vergonha é um preconceito muito triste. Eu sei que existe de tudo, mas hoje sei que muitas vezes o doente cai no ciclo do vício sem perceber o mal que provoca. Falta muito conhecimento sobre este tema no Brasil.

Você já sentiu raiva do dinheiro que tinha?
Isabella Moraes: Sim, várias vezes. Hoje vejo o dinheiro como uma necessidade para viver bem e educar meu filho. Claro que dinheiro é bom. Mas não é a receita para a felicidade, posso dizer isso com toda a certeza. A receita para a felicidade é encontrar o seu eu e aceitar-se como é. Assim se sentirá livre para viver como quer, sem se preocupar com o julgamento dos outros. É dessa forma que vivo hoje.

Recentemente, tivemos o caso do cantor Chorão, que morreu de overdose. A mulher dele foi muito cobrada por ter se distanciado quando o uso da droga pelo cantor ficou mais intenso. Você também sentiu, de alguma forma, a cobrança por ser filha de um dependente químico?
Isabella Moraes: Meus irmãos, minha mãe e eu nunca nos distanciamos de meu pai. Até hoje cuidamos dele e estamos sempre com ele. Talvez se tivéssemos nos distanciado ele poderia ter acordado antes e, quem sabe, teria melhorado. Não há regras. Ele é uma pessoa maravilhosa que foi vítima do crack e da falta de limites. Tive cobranças dentro de casa sim. Diziam: ‘Isabella você é a filha mais velha, você tem que cuidar, salvar o seu pai’. Escuto isso desde pequena. Era um peso para mim, pois eu realmente acreditei que meu papel era cuidar de todos. Chegou uma hora em que, por amor a mim e por amor ao meu filho, saí de casa e fui cuidar de nós. Ainda estou correndo atrás do tempo que perdi não cuidando de mim. Estou recolhendo os meus caquinhos.

Você perdoou seu pai? Foi difícil este processo? Tem algo que ainda machuca?
Isabella Moraes: Sim, perdoei. Consegui perdoar, pois hoje tenho a clareza de que o estrago que ele fez não foi proposital. Ele é um homem bom, que ama seus filhos. Ele foi fraco, caiu em uma cilada, seus pais não deram limites. O processo de perdão foi difícil e ainda é. Um dia de cada vez. Mas eu amo tanto ele que isso se torna mais fácil. Tem muitas coisas que ainda me machucam. Mas hoje tenho a maturidade para lidar com a dor e os traumas que ainda carrego.

Você vai lançar um livro contando a sua história, uma exposição que não foi bem aceita por parte de seus familiares. Quem da sua família é contrário ao livro e por que você acredita que a exposição pode trazer benefícios?
Isabella Moraes: Minha família é maravilhosa mas muitos ainda não superaram os traumas e, por isso, não aceitam essa exposição, o que eu entendo. Não tem nada sendo revelado por mim. O estrago foi feito há anos. Agora, estou apenas contando minha história, como eu vivi isso e, principalmente, como consegui superar. Vou, inclusive com meu livro, redimir minha família. Acredito que os benefícios serão grandes. Quem tem esses problemas psíquicos sempre tem vergonha de se expor.

O nome do seu livro é "Agora é viver", uma historia de codependência. Quando você acha que se sentiu pronta para a vida?
Isabella Moraes: Acredito que desde que meu filho nasceu . Ele foi crescendo e eu também. João Flavio, meu filho (16 anos), me deu força, coragem e me ensinou o que é o verdadeiro amor. Hoje aos 37 anos e após muitas lutas me sinto preparada para apenas viver. Ser feliz e cuidar de mim.

Fonte: http://saude.ig.com.br/minhasaude/2013-04-17/me-sentia-tao-sozinha-e-abandonada-que-acabei-adoecendo-tambem.html
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quarta-feira, 17 de abril de 2013

SEM NUNCA USAR CRACK, FAMILIARES ADOECERAM POR CAUSA DA DROGA

Sem nunca usar crack, elas adoeceram por causa da droga

Filha, mãe e mulher de dependentes químicos, Isabella, Lusimar e Polyana personificam a doença que afeta os parentes dos usuários

Na órbita da dependência química estão pais, mulheres, maridos, irmãos, amigos e filhos. Pessoas que adoecem, mesmo sem estarem mapeadas pelas pesquisas que quantificam usuários de drogas. A estimativa dos estudiosos é de que para cada pessoa no alvo direto das drogas, são nove afetados de forma secundária.
Só para o crack, em uma matemática simples, chega-se a 9 milhões de adoecidos. Isso porque, segundo levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o Brasil concentra 1 milhão de viciados nos efeitos tóxicos da pedra.

Isabella Moraes, 37 anos, Lusimar Alvares, 62 anos e Pollyana A.D, 35, são exemplos de pacientes que adoeceram sem nunca terem usado o cachimbo. Em ordem, são filha, mãe e mulher de usuários em recuperação, que acabaram deprimidas, ansiosas e com dores crônicas, transtornos desencadeados pela dependência química de seus entes queridos.
Segundo Carlos Ribaldo, presidente da Federação Brasileira Amor Exigente – entidade que reúne os mais de 50 grupos terapêuticos focados em familiares de dependentes químicos – não tratar e acolher esta população chamada “codependente” é errar duplamente:
“Primeiro, porque as famílias sofrem e acabam excluídas de um tratamento”, afirma Ribaldo. “Depois, e o mais importante, é que os familiares são peças decisivas na recuperação do dependente químico. Apoiar não significa ficar ao lado incondicionalmente, muitas vezes alimentando de forma inconsciente o comportamento compulsivo do dependente químico”, avalia.
“Não orientar as famílias é ajudar a manteros resultados ainda muito modestos (menos de 40%) de recuperação dos dependentes químicos.”
As três co-dependentes, depois que descobriram o que é ser codependente, confirmam a avaliação de Carlos Ribaldo. Em entrevista, contaram como mudaram de postura e sobreviveram à dependência química indireta.
Acompanhe as entrevista a partir de amanhã aqui no blog.

Fonte: http://saude.ig.com.br/minhasaude/2013-04-17/sem-nunca-usar-crack-elas-adoeceram-por-causa-da-droga.html
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quinta-feira, 11 de abril de 2013

USO NOCIVO DE ÁLCOOL AUMENTA 31,1% NO PAÍS

Uso nocivo de álcool aumenta 31,1% no País

Em seis anos, taxa de pessoas que bebem mais de quatro doses por ocasião pulou de 45% para 59%. Mulheres são responsáveis pela alta

Uma nova pesquisa divulgada nesta quarta-feira (10) pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostra que entre 2006 e 2012 aumentou em 31,1% o uso nocivo de álcool na população brasileira, comportamento que eleva o risco de doenças crônicas e também a vulnerabilidade à violência urbana.
Os dados fazem parte do segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) que investigou os hábitos etílicos no País, por meio de 4.607 entrevistados maiores de 14 anos, de todas as regiões do Brasil.
Os novos dados apontam que apesar do número de pessoas que bebem não ter aumentado no período – a taxa de bebedores permaneceu estável em 52% – o consumo entre os que admitem beber está mais alto, chamado pelos especialistas de “heavy drinking” (beber pesado).
“Beber pesado” ou “heavy drinking” é um padrão de consumo descrito quando os homens bebem mais de cinco doses e as mulheres mais de quatro copos de pinga, vodca, cerveja, uísque ou vinho quando decidem beber. Eles não entram na classificação de dependentes de álcool, mas isso não significa que esta parcela esteja isenta de complicações sociais e na saúde, afirmam os especialistas.

Impactos sociais do álcool

Além dos riscos de doença e de exposição à violência, a bebida também prejudica a vida social.
Pesquisas anteriores já alertaram que este padrão de consumo, ainda que realizado uma vez por semana e não diariamente, é suficiente para intoxicar o organismo e ser gatilho de tumores, transtornos de humor e falência do fígado entre outros problemas.
Leia:Bebedeira de sábado é mais perigosa do que beber todo dia
Por isso, os autores do Lenad disseram estar alarmados com os novos números e não comemoraram o fato do índice de dependentes de álcool ter permanecido em 17% nos últimos seis anos.

Mulheres
Elas foram as maiores responsáveis pela elevação deste padrão de consumo do álcool que, segundo os especialistas, torna os consumidores mais predispostos a doenças crônicas do fígado, câncer e depressão, por exemplo, além de estar associado ao aumento de violência doméstica, dos acidentes de trânsito, das brigas e dos suicídios.
Entre elas, o índice de ‘heavy drinking’ atestado nas bebedoras saiu de 36% em 2006 para 49% em 2012 – aumento porcentual de 36,5%. Já nos homens, a variação foi de 29,4%, passando de 51% para 66%.
Leia mais:Líderes em abuso de álcool são mulheres jovens e homens de meia-idade
Para a pesquisadora Ilana Pinsky as mulheres ficaram mais exposta às pressões do mercado de trabalho, ao estresse e também passaram a ser alvo da publicidade de bebidas, especialmente da cerveja, o que pode justificar o maior aumento do consumo feminino.

Violência
Clarice Sandi Madruga, uma das coordenadoras do Lenad, afirmou que a ligação do uso problemático de álcool e dos episódios violentos ficou evidente com a nova publicação.
“Só um exemplo é o envolvimento em agressões físicas. Na população geral, o número de pessoas que brigaram no último ano foi de 2,6%. Já entre os homens que bebem de forma perigosa sobe para 27%”, citou.
“Entre os 6% que relataram terem sido vítimas de violência doméstica, metade disse que o agressor estava embriagado no dia da agressão. Nosso estudo indica ainda que 5% dos brasileiros já tentaram suicídio, parcela que sobe para 41% entre os bebedores problemáticos”, pontuou a especialista.

Renda e políticas
Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, um dos autores do estudo e um dos maiores pesquisadores do uso de álcool da América Latina, são duas as explicações para os novos números.
“A primeira delas é que o aumento de renda da população pode explicar o agravamento do hábito de beber”, avalia.
“Atestamos que a quantidade de abstêmios não foi alterada (ficou em 48%), mas aqueles que já bebiam estão bebendo mais doses, investindo mais dinheiro em bebida, o que é muito perigoso para a saúde”, explica.
“A segunda questão é que a falta de políticas públicas para desestimular o uso de álcool ficou evidente. A única existente no País é focada em coibir o ato de beber e dirigir. Mas é preciso investir em modelos, conforme preconiza a Organização Mundial de Saúde, que elevem o preço das bebidas, diminuam os postos de venda e o horário de funcionamento dos estabelecimentos, sem esquecer a regulamentação da publicidade do álcool”, afirma Laranjeira.

Lei Seca
A boa notícia é que a chamada Lei Seca, em vigor no País desde 2008 e que ficou ainda mais rígida no final do ano passado, de fato surtiu efeito no comportamento da população brasileira. Em 2006, 27,5% dos pesquisados admitia beber e dirigir, índice que caiu para 21,6% em 2012, uma diminuição de 21%.
 
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segunda-feira, 18 de março de 2013

CHORÃO - SUA FAMÍLIA E A CODEPENDÊNCIA

Só o desespero gerado pela perda inesperada de um ente querido explica a reação de familiares de Chorão de atribuir a culpa pela sua morte à ex-mulher, a estilista Graziela Gonçalves. Não há culpados nessa história, apenas vítimas da dependência química. Quantos Chorões e Grazielas não vivem hoje o mesmo drama?
Quantas mulheres que amam ou amaram um dependente químico já não enfrentaram a mesma acusação absurda? Como o grupo Narcóticos Anônimos bem coloca, não há nada a fazer se o dependente químico não se conscientizar de que está doente, de que não tem controle sobre a compulsão e de que precisa de ajuda para se livrar dela. O terceiro mandamento do NA é claro sobre isso: "Um adicto que não queira parar de usar não vai parar de usar. Pode ser analisado, aconselhado, pode se rezar por ele, pode ser ameaçado, surrado ou trancado, mas não irá parar até que queira parar".
Por outro lado, é importante enfatizar que ir além dos próprios limites para tentar "salvar" alguém não é nada saudável. Quem compartilha a vida com um dependente químico, alcoólatra ou vítima de outra compulsão pode acabar, sem perceber, desenvolvendo um transtorno emocional chamado de codependência. Segundo o psiquiatra Geraldo José Ballone, criador do site PsiqWeb, codependentes são familiares, normalmente pais, filhos ou cônjuges, que vivem obsessivamente em função da pessoa problemática."Tentam ajudá-la o tempo todo, esquecendo de cuida da própria vida."
Normalmente são pessoas que têm baixa autoestima, intenso sentimento de culpa e não conseguem se desvencilhar da pessoa dependente. Quantas pessoas não conhecemos com esse perfil? Suportam todo tipo de comportamento compulsivo do outro, como se assumissem uma espécie de "carma", como se esse fosse o seu destino. Existe uma expressão na psicologia e na psiquiatria que representa bem a maneira como o codependente adere à pessoa problemática: atadura emocional. Acontece quando uma pessoa se"atrela "emocionalmente a coisas negativas ou patológicas de alguém que a rodeia. Por causa dessas amarras emocionais, o codependente passa a ser quase um outro dependente (da pessoa problemática). Ele quer ser o "salvador" da outra pessoa. Mas o problema do codependente é muito mais dele próprio do que da pessoa problemática.
Todo amor que não produz paz, mas sim angústia ou culpa, pode estar contaminado de codependência. É um amor patológico, obsessivo e bastante destrutivo. Atualmente, há grupos de ajuda para familiares de dependentes (químicos e alcoólicos) que se propõem a tratar a codependência, orientando os familiares a adotarem comportamentos mais saudáveis. Os profissionais acreditam que o primeiro passo para a mudança é tomar consciência e aceitar o problema.
O tratamento pode envolver psicoterapia, terapia familiar, uso de medicamentos e grupos de autoajuda, como o Alanom e Codependentes Anônimos (nos mesmos moldes dos Alcoólicos Anônimos). A polêmica em torno da morte de Chorão é um bom momento para a sociedade refletir sobre essa questão, que geralmente fica ofuscada pelo enorme peso da dependência química. Devemos pensar nisso antes de sair por aí atribuindo culpas a pessoas que, muitas vezes, estão tão frágeis e doentes quanto o próprio dependente químico.
Cláudia Collucci é repórter especial da Folha, especializada na área da saúde. Mestre em história da ciência pela PUC-SP e pós graduanda em gestão de saúde pela FGV-SP, foi bolsista da University of Michigan (2010) e da Georgetown University (2011), onde pesquisou sobre conflitos de interesse e o impacto das novas tecnologias em saúde. É autora dos livros "Quero ser mãe" e "Por que a gravidez não vem?" e coautora de "Experimentos e Experimentações". Escreve às quartas, no site.

Fonte: Folha de São Paulo - Equilíbrio e Saúde

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domingo, 17 de março de 2013

CRACK CHEGOU AO BRASIL NO INÍCIO DA DÉCADA DE 1990

 O crack surgiu nos Estados Unidos na década de 1980 em bairros pobres de Nova Iorque, Los Angeles e Miami. O baixo preço da droga e a possibilidade de fabricação caseira atraíram consumidores que não podiam comprar cocaína refinada, mais cara e, por isso, de difícil acesso. Aos jovens atraídos pelo custo da droga juntaram-se u...suários de cocaína injetável, que viram no crack uma opção com efeitos igualmente intensos, porém sem risco de contaminação pelo vírus da Aids, que se tornou epidemia na época.

No Brasil, a droga chegou no início da década de 1990 e se disseminou inicialmente em São Paulo. De acordo com a Polícia Federal, o consumo do crack se alastrou no País por ser uma droga de custo mais baixo que o cloridrato de coca, a cocaína refinada (em pó). Para produzir o crack, os traficantes utilizam menos produtos químicos para fabricação, o que a torna mais barata.

O primeiro relato do uso do crack em São Paulo aconteceu em 1989. Dois anos depois, em 1991, houve a primeira apreensão da droga, em São Paulo. Em 2005, o consumo do crack atingia 0,1% da população brasileira, hoje, aponta o Ministério da Saúde, afeta 2% dos brasileiros.
Tudo cabe na lata, diz psicólogo

Na mitologia, a Medusa petrifica tudo que olha. Assim, são os usuários de crack: convertem em pedra tudo que possuem, como carro, casa, joias, terrenos e qualquer coisa que possam vender para manterem o vício. "Tudo acaba na lata", afirma o psicólogo, Tauama de Moraes. Ele é um dos membros da equipe multidisciplinar da Casa Despertar, entidade particular que cuida dos dependentes químicos em Fortaleza.

A comparação cabe direitinho na história de Luiz Carlos (nome fictício), 21 anos, filho de família de classe média. Até os 14 anos, era aluno destacado. Levado pelos "coleguinhas" a algumas festas, começou na maconha, passou pela cocaína e, agora, é dependente do crack. Abandonou escola, família e os verdadeiros amigos.

Com a morte dos pais, em acidente de carro, herdou uma boa casa, na Cidade dos Funcionários, e expulsou todos que ali moravam, duas tias e uma prima. Com a fissura pela droga, foi vendendo tudo, incluindo o encanamento, torneiras, portas, fios e vasos sanitários. Tudo se transformou em pedra. Hoje, depois de ser "resgatado" das ruas por parentes, foi internado na Casa Despertar e vive um ciclo: é internado, passa por desintoxicação, sai, volta ao vício.
 
 
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sexta-feira, 15 de março de 2013

USO ABUSIVO DE DROGAS ELEVA RISCO DE HOMICÍDIO

Transtorno psiquiátrico eleva risco de uma pessoa ser vítima de homicídio

Novo estudo mostrou que o distúrbio que mais eleva essa chance é aquele relacionado ao abuso de substâncias tóxicas

Um estudo publicado nesta terça-feira no site do periódico British Medical Journal (BMJ) sugere que pessoas que sofrem de algum transtorno psiquiátrico têm um risco maior de serem vítimas de homicídio. Segundo a pesquisa, feita por especialistas americanos e suecos, essa chance pode chegar a ser nove vezes maior dependendo do distúrbio apresentado pelo indivíduo — e o problema que parece ser mais perigoso nesse sentido é a dependência química.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Mental disorders and vulnerability to homicidal death: Swedish nationwide cohort study

Onde foi divulgada: site do periódico British Medical Journal (BMJ)

Quem fez: Casey Crump, Kristina Sundquist, Marilyn Winkleby e Jan Sundquist

Instituição: Universidade Stanford, EUA, e Universidade de Lund, Suécia

Dados de amostragem: 7.253 suecos adultos

Resultado: Em comparação com pessoas sem transtornos psiquiátricos, pessoas com algum desses problemas têm, no geral, um risco cinco vezes maior de ser vítimas de homicídio. Essa chance é nove vezes maior entre aquelas que têm problemas com abuso de substâncias tóxicas; 3,2 vezes maior entre quem tem algum transtorno de personalidade; 2,6 vezes maior entre quem tem depressão; 2,2 maior entre indivíduos com ansiedade; e 1,8 vez maior entre esquizofrênicos.
De acordo com os autores da pesquisa, embora a prática de violência por parte de indivíduos com transtornos mentais seja muito analisada, o risco de essas pessoas serem vítimas, e não autoras, de homicídios é algo “raramente estudado”. Para os pesquisadores, as conclusões desse novo trabalho podem ajudar a desenvolver estratégias mais eficazes para melhorar a segurança e a saúde de pacientes com algum distúrbio psiquiátrico.
Essa pesquisa foi desenvolvida na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, junto à Universidade de Lund, na Suécia. A equipe levou em consideração os casos de pacientes com transtornos psiquiátricos e os registros de homicídio entre 2001 e 2008 em toda a população de adultos suecos. Os distúrbios mentais foram agrupados nas seguintes categorias: transtorno de uso de drogas, esquizofrenia, transtornos de humor (incluindo bipolaridade e depressão), ansiedade e transtornos de personalidade.
O tamanho do risco — Ao todo, 7.253 indivíduos participaram da pesquisa. Desses, 615 morreram vítimas do homicídio, sendo que 141 deles, ou 22%, apresentavam algum transtorno psiquiátrico. Segundo o estudo, apresentar algum distúrbio aumenta, em média, em cinco vezes a chance de morte por homicídio em comparação com não ter o problema. O maior risco foi observado em pessoas com distúrbios relacionados ao abuso de substâncias tóxicas (um risco nove vezes maior). Também elevaram essas chances transtornos de personalidade (3,2 vezes), depressão (2,6 vezes), transtorno de ansiedade (2,2 vezes) e esquizofrenia (1,8 vez).
No estudo, os autores escrevem que existem possíveis explicações para essas conclusões, como o fato de haver uma alta prevalência de abuso de substâncias tóxicas entre pessoas com transtornos psiquiátricos, que é algo associado à violência. Indivíduos com esses problemas, independentemente do uso dessas substâncias, também tendem a ter mais contato com outras pessoas com distúrbios mentais e podem ser menos atentos a situações que representam perigo.
Em um editorial que acompanhou o estudo, Roger Webb e Jenny Shaw, pesquisadores do Instituto da Saúde Mental, do Cérebro e do Comportamento da Universidade de Manchester, na Grã-Bretanha, acreditam que a pesquisa deve fazer com que os médicos passem a avaliar todos os tipos de risco que pacientes com doenças mentais possam apresentar. E, entre esses tipos, é preciso considerar a chance de o paciente ser vítima de homicídio, bem como de ser o autor de um. “Esses riscos andam juntos, e pessoas com distúrbios mentais, assim como suas famílias, devem receber informações sobre todos os perigos”, escrevem.

Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/saude/transtorno-psiquiatrico-eleva-risco-de-uma-pessoa-ser-vitima-de-homicidio

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quarta-feira, 23 de maio de 2012

DESCOBERTO MECANISMO NO CÉREBRO LIGADO À DEPENDÊNCIA QUÍMICA

... Estudo publicado neste domingo na revista especializada Nature Neuroscience sugere que algumas conexões cerebrais até então desconhecidas aumentam as chances de os adolescentes se tornarem dependentes de drogas e bebidas alcoolicas. A descoberta responde a um antigo questionamento dos médicos, que não conseguiam determinar padrões verificados no cérebro de usuários de drogas era provocada pelo hábito ou era uma condição preexistente. Para chegar à conclusão, foram submetidos a exames de imagem 1896 jovens com 14 anos.

O problema é causado por uma diminuição das atividades dos neurônios da região do cérebro chamada de córtex pré-frontal, relacionada diretamente a tomada de decisões. A diferença no funcionamento faz com que os indivíduos se tornem mais impulsivos. Os cientistas creem que o achado poderá ajudar a estabeleces estratégias para o combate às drogas.

“A dependência de entorpecentes é um dos maiores problemas do mundo ocidental. Entender estas redes cerebrais poderá ter grandes implicações para a saúde pública”, comemora o professor do departamento de psiquiatra da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, Hugh Garavan, um dos responsáveis pelo estudo.

O trabalho afastou ainda a existência de relação entre o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e o uso de entorpecentes. Embora a doença também esteja associada a um déficit no sistema de controle inibitório, os problemas não ocorrem nas mesmas redes neurais diferentes. Ultimamente, houve grande debate em torno do tema.

Levantamento realizado em 2005 pelo Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas estima que pouco mais de 22% dos brasileiros tenham usado substâncias psicotrópicas em algum momento da vida. A maior preocupação das autoridades no momento é em relação ao aumento do consumo de crack, que provoca, em um curto período de tempo, efeitos devastadores no organismo. Até 2014, o Ministério da Saúde deve investir, em todo o país, R$ 2 bilhões na implantação e ampliação dos serviços para atender aos usuários da droga
 
Fonte: Jornal do Brasil
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sexta-feira, 18 de maio de 2012

DEPENDÊNCIA QUÍMICA - BATE PAPO ENTRE DRAUZIO VARELA E RONALDO LARANJEIRA

As drogas acionam o sistema de recompensa do cérebro, uma área encarregada de receber estímulos de prazer e transmitir essa sensação para o corpo todo. Isso vale para todos os tipos de prazer – temperatura agradável, emoção gratificante, alimentação, sexo – e desempenha função importante para a preservação da espécie.
Evolutivamente o homem criou essa área de recompensa e é nela que as drogas interferem. Por uma espécie de curto circuito, elas provocam uma ilusão química de prazer que induz a pessoa a repetir seu uso compulsivamente. Com a repetição do consumo, perdem o significado todas as fontes naturais de prazer e só interessa aquele imediato propiciado pela droga, mesmo que isso comprometa e ameace a vida do usuário.
MECANISMO GERAL DA DEPENDÊNCIA
Drauzio – Que mecanismo do corpo humano explica o processo de dependência da droga?
Ronaldo Laranjeira – Acho importante destacar que existe, no cérebro, uma área responsável pelo prazer. O prazer, que sentimos ao comer, fazer sexo ou ao expor o corpo ao calor do sol, é integrado numa área cerebral chamada sistema de recompensa. Esse sistema foi relevante para a sobrevivência da espécie. Quando os animais sentiam prazer na atividade sexual, a tendência era repeti-la. Estar abrigado do frio não só dava prazer, mas também protegia a espécie. Desse modo, evolutivamente, criamos essa área de recompensa e é nela que a ação química de diversas drogas interfere. Apesar de cada uma possuir mecanismo de ação e efeitos diferentes, a proposta final é a mesma, não importa se tenha vindo do cigarro, álcool, maconha, cocaína ou heroína. Por isso, só produzem dependência as drogas que de algum modo atuam nessa área. O LSD, por exemplo, embora tenha uma ação perturbadora no sistema nervoso central e altere a forma como a pessoa vê, ouve e sente, não dá prazer e, portanto, não cria dependência.
Vários são os motivos que levam à dependência química, mas o final é sempre o mesmo. De alguma maneira, as drogas pervertem o sistema de recompensa. A pessoa passa a dar-lhes preferência quase absoluta, mesmo que isso atrapalhe todo o resto em sua vida. Para quem está de fora fica difícil entender por que o usuário de cocaína ou de crack, com a saúde deteriorada, não abandona a droga. Tal comportamento reflete uma disfunção do cérebro. A atenção do dependente se volta para o prazer imediato propiciado pelo uso da droga, fazendo com que percam significado todas as outras fontes de prazer.
Drauzio – Você diz que a evolução criou, no cérebro, um centro de recompensa ligado diretamente à sobrevivência da espécie. As abelhas, quando pousam numa flor e encontram néctar, liberam um mediador chamado octopamina, neurotransmissor presente nas sensações de prazer. Esses mecanismos são bastante arcaicos?
Ronaldo Laranjeira – O sistema de prazer é muito primitivo. É importante para as abelhas e para os seres humanos também. A droga produz efeito tão intenso porque age nesses mecanismos biológicos bastante primitivos.
Drauzio – Mecanismos tão arcaicos assim representam uma armadilha poderosa. Na verdade, provoca-se um estímulo forte que está mexendo com milhares de anos de evolução.
Ronaldo Laranjeira – Acho que estamos cada vez mais valorizando esse tipo de mecanismo. A droga é um fenômeno psicossocial amplo, mas que acaba interferindo nesse mecanismo biológico primitivo.
DEPENDÊNCIA É UM PROCESSO DE APRENDIZADO
Drauzio – A maioria das pessoas bebe com moderação, mas algumas fazem uso abusivo do álcool. Há quem fume maconha ou use cocaína esporadicamente, mas existem os que fumam crack o dia inteiro. O que explica essa diferença? A resposta está na droga ou no usuário?
Ronaldo Laranjeira – Parte da resposta está na tendência ao uso crônico e na história de cada pessoa. Quando começou a usar? Como interpreta os sintomas da síndrome de abstinência? Além disso, o que vai fazer com que repita a experiência não é só a busca do prazer, mas a tentativa de evitar o desprazer que a ausência da droga produz.
A dependência é um processo de aprendizado. O fumante, por exemplo, pela manhã já manifesta sintomas da abstinência. Fica irritado e sua capacidade de concentração baixa. Ele fuma, o desconforto diminui. Vinte minutos depois, o nível de nicotina no cérebro cai, voltam os sintomas da abstinência e ele vai aprendendo a usar a droga pelo efeito agradável que proporciona e para evitar o desprazer que sua falta produz.
A dependência é fruto, então, do mecanismo psicológico que a um só tempo induz o indivíduo a buscar o prazer e evitar o desprazer, e fruto das alterações cerebrais que a droga provoca. Essa interação entre aspectos psicológicos e efeito farmacológico vai determinar o perfil dos sintomas de abstinência de cada pessoa. A compulsão é menor naquelas que toleram a abstinência um pouco mais, e maior nas que a inquietação é intensa diante do menor sinal da síndrome de abstinência.
Resumindo: a dependência química pressupõe o mecanismo psicológico de buscar a droga e a necessidade biológica que se criou no organismo. Disso resulta a diversidade de comportamentos dos usuários.
A maconha é um bom exemplo. Seu uso compulsivo hoje é maior do que era há 20, 30 anos e, de acordo com as evidências, quanto mais cedo o indivíduo começa a usá-la, maior é a possibilidade de tornar-se dependente. Como garotos de 12, 13 anos e, às vezes, até mais novos, estão usando maconha, atualmente o problema se agrava. Além disso, as concentrações de THC (princípio ativo da maconha) aumentaram muito nos últimos tempos. Na década de 1960, andavam por volta de 0,5% e agora alcançam 5%. Portanto, a maconha de hoje é 10 vezes mais potente do que era naquela época.
Diante disso, a Escola Paulista de Medicina sentiu a necessidade de montar um ambulatório só para atender os usuários de maconha e há uma lista de espera composta por adolescentes e jovens adultos desmotivados, que fumam seis, sete baseados por dia e não conseguem fazer outra coisa na vida. Isso não acontecia quando a concentração de THC era mais fraca e o acesso à droga mais restrito.
Drauzio - Quando se conversa com usuários de maconha de muitos anos, eles lastimam que a droga tenha perdido a qualidade. Sua explicação prova exatamente o contrário. Terão essas pessoas desenvolvido um grau de tolerância maior à droga?
Ronaldo Laranjeira - Acho que a queixa é fruto de um certo saudosismo, uma vez que há tipos de maconha, entre eles o skank, que chegam a ter 20% de THC. Na Holanda, foram desenvolvidas cepas que contêm maior concentração desse princípio ativo, o que faz com que a maconha perca a classificação de droga leve e se transforme numa substância poderosa para causar dependência. Deve-se considerar, ainda, como justificativa da queixa que o uso crônico causa sempre certa tolerância.
Drauzio - No Carandiru, minha experiência mostra que há quem fume um baseado a cada 30 minutos. Uma droga que exija tal frequência de consumo não pode ser considerada leve, não é verdade?
Ronaldo Laranjeira – Infelizmente não existem drogas leves, se produzirem estímulo no sistema de recompensa cerebral. Em geral, as pessoas perguntam: mas se a droga dá prazer, qual é o problema? O problema é que ela não mexe apenas na área do prazer. Mexe também em outras áreas e o cérebro fica alterado. Diante de uma fonte artificial de prazer, ele reage de modo impróprio. Se existe a possibilidade de prazer imediato, por que investir em outro que demande maior esforço e empenho? A droga perverte o repertório de busca de prazer e empobrece a pessoa. Comer, conversar, estabelecer relacionamentos afetivos, trabalhar são fontes de prazer que valorizamos, mas não são imediatas.
CARACTERÍSTICAS COMPORTAMENTAIS DOS USUÁRIOS
Drauzio – O uso crônico do álcool provoca uma série de alterações que todo mundo conhece e reconhece. Em relação às outras drogas, de acordo com sua experiência pessoal e não com as definições dos livros, quais as principais características do usuário?
Ronaldo Laranjeira – No ambulatório da Escola Paulista de Medicina que atende usuários de maconha, pude notar que há dois grupos distintos. Um é constituído por jovens que perderam o interesse por tudo o que faziam. Não estudam nem trabalham. Estão completamente desmotivados. É o que chamamos de síndrome amotivacional. O nome é feio, mas pertinente. O outro grupo é formado por pessoas nas quais se estabelece uma relação complexa entre maconha e doenças mentais como psicose e depressão. Não se sabe se a maconha produz a doença mental. O que se sabe é que ela piora os sintomas de qualquer uma delas, seja ansiedade ou esquizofrenia.
AÇÃO E EFEITO DAS DIFERENTES DROGAS
Drauzio -Teoricamente, quando a pessoa ansiosa fuma maconha, fica mais relaxada. Você acha que isso é um mito?
Ronaldo Laranjeira – É importante distinguir, na droga, o efeito imediato do efeito cumulativo. No geral, sob a ação da maconha, a pessoa ansiosa relaxa um pouco, mas esse é um efeito de curto prazo. O álcool também relaxa num primeiro momento. No entanto, as evidências demonstram que nas pessoas ansiosas seu uso crônico aumenta os níveis de ansiedade, porque o cérebro reage tentando manter o sistema em equilíbrio. É o efeito de homeóstase. Se alguém usa um estimulante, passado o efeito, o cérebro não volta ao funcionamento normal imediatamente. Surge o efeito rebote. Isso ocorre com qualquer droga. Tanto com a maconha quanto com o álcool, findo o efeito depressor, o efeito rebote elevará os níveis de ansiedade.
Drauzio – Como age a maconha na memória?
Ronaldo Laranjeira - A maconha diminui a concentração, a memória e a atenção. É um efeito bastante rápido. Estudos mostram que, se alguém usar maconha num dia e medir os níveis de memória e concentração no outro, eles estarão ligeiramente alterados. Isso tem um impacto bastante negativo na vida dos adolescentes.
Na verdade, não há droga que melhore o desempenho intelectual. Nós sabemos que pessoas criativas usam drogas e produzem coisas criativas. Se elas não fossem criativas por natureza, não haveria droga no mundo capaz de produzir esse resultado.
Drauzio - Quais são os efeitos crônicos da cocaína?
Ronaldo Laranjeira – Em relação à saúde, o efeito mais grave da cocaína são os problemas cardíacos e cardiovasculares. Quando associada ao álcool, então, ela é uma das principais causas de infarto do miocárdio em adultos jovens.
ASSOCIAÇÃO PERIGOSA DA COVAÍNA COM O ÁLCOOL
Drauzio – Por que o usuário de cocaína bebe tanto?
Ronaldo Laranjeira – De alguma forma, o álcool faz com que a pessoa se sinta mais liberada e use cocaína, um estimulante potente. Para diminuir a excitação, ela torna a beber e, como num círculo vicioso, a usar cocaína. A confusão cerebral aumenta consideravelmente e a tendência é beber ou cheirar mais. Trata-se de uma reação perturbadora em que o álcool incentiva o consumo de cocaína e vice-versa.
Drauzio – Fico assustado com a quantidade de bebida destilada que o usuário de cocaína consome.
Ronaldo Laranjeira – A cocaína aumenta a resistência ao álcool, porque um pouco de seu efeito depressor é atenuado pela cocaína. Por outro lado, a pessoa tolera quantidades maiores de álcool, porque precisa abrandar os efeitos altamente excitantes da cocaína.
Sempre é válido repetir que álcool e cocaína representam uma das associações de drogas mais perigosas que existem. Ao que parece, tal associação dá origem a uma terceira molécula extremamente tóxica para cérebro e para o músculo cardíaco.
Drauzio – No Carandiru, vi meninos de 20 e poucos anos com infarto do miocárdio ou derrame cerebral puxando o braço ou a perna depois de uma seção de crack ou de uma overdose de cocaína. Isso acontece frequentemente?
Ronaldo Laranjeira – Infelizmente, no Brasil, não há dados precisos sobre o que aconteceu com os usuários de cocaína, porque o sistema médico não é muito coordenado. Se eles existissem, ficaríamos horrorizados.
Tivemos uma pequena experiência acompanhando, por cinco anos, o primeiro grupo de usuários de crack que foi internado em Cidade de Taipas, interior de São Paulo. Era uma população de classe média baixa. No final desse período, 30% tinham morrido em acidentes ou por morte violenta. Nesse caso, as famílias não sabiam dizer quem eram os responsáveis pelas mortes: os traficantes ou a polícia.
Não sabemos se isso ocorre com todos os usuários de crack. Temos certeza, porém, de que poucas doenças apresentam esse índice de mortalidade.
SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA / EFEITO REBOTE
Drauzio – Como se manifesta o efeito rebote?
Ronaldo Laranjeira – O mecanismo de recompensa cerebral é importante para a preservação da espécie e ninguém é contra o prazer. Ao contrário, deveríamos estimular o surgimento de inúmeras fontes de prazer. A dependência química, entretanto, cria uma ilusão de prazer que acaba perturbando outros mecanismos cerebrais. Se, fumando um baseado, a pessoa relaxa, findo o efeito, a ansiedade ganha força, pois a síndrome de abstinência é imediata. É o chamado efeito rebote.
A cocaína age de forma diferente. O efeito rebote está na impossibilidade de sentir prazer sem a droga. Passada a excitação que ela provoca, a pessoa não volta ao normal. Fica deprimida, desanimada. Tudo perde a graça. Como só sente prazer sob a ação da droga, torna-se um usuário crônico. Às vezes, tenta suspender o uso e reassumir as atividades normais, mas nada lhe dá prazer. Parece que, por vingança divina, o cérebro perdeu a capacidade de experimentar outras fontes que não a desse prazer artificial que a droga proporciona.
Essa é uma das tragédias a que se expõem os dependentes químicos. No processo de reabilitação, quando a pessoa para de usar droga, é fundamental ajudá-la a reencontrar fontes de prazer independentes da substância química.
Drauzio – Quem está de fora dificilmente entende o comportamento do dependente. “Esse cara, em vez de estar namorando, indo ao cinema, estudando, fica cheirando cocaína ou fumando crack”, é o que normalmente todos pensam. Isso dá a sensação de que o outro é fraco, com comportamento abjeto, digno de desprezo. Quem está passando por isso, vê a realidade de forma diferente?
Ronaldo Laranjeira – Na verdade, essa pessoa está doente. Seu cérebro está doente, com a sensação de que não existe outro prazer além da droga. Isso acontece também com o cigarro, uma fonte preciosa de prazer para os fumantes que adiam a decisão de parar de fumar por medo de perdê-la. De fato, 30% dos fumantes, logo depois que se afastam da nicotina, apresentam sintomas expressivos de depressão e precisam ser medicados com antidepressivos.
BUSCA DO PRAZER TOTAL
Drauzio - Você acha que um dia aparecerá uma droga cujo mecanismo de ação se encarregue de nos deixar felizes sem provocar malefícios no cérebro?
Ronaldo Laranjeira – Não acredito. Fica difícil imaginar uma droga que aja só no centro de prazer sem perturbar os demais mecanismos bioquímicos do cérebro, que é um órgão complexo e evolutivamente preparado para vivenciar muitas formas de prazeres sutis. Para tais estímulos, está aparelhado. Para os advindos das drogas, não.
Drauzio – Você não acha que o homem está sempre à procura do prazer total?
Ronaldo Laranjeira – A busca do prazer é uma característica positiva do ser humano. No caso das drogas, porém, ao querer superar a própria biologia por um artifício grosseiro, ele acaba se empobrecendo. O desejo de intensificar o prazer ao máximo empurra o homem para uma guerra que jamais será vencida.
CAMPANHAS CONTRA AS DROGAS
Drauzio – Quando analisamos as campanhas contra as drogas, verificamos que se baseiam muito nos aspectos negativos dessas substâncias. A ideia é sempre assustar o usuário: “droga mata”. Aí, o garoto fuma um baseado e não morre. Ao contrário, sente-se bem e fica achando que tudo não passa de uma grande mentira. Você acha que o enfoque das campanhas é ingênuo?
Ronaldo Laranjeira – Estamos ainda muito no começo. Na criação de um modelo do que acontece com os usuários de droga, as campanhas estão numa fase bastante embrionária, mas acho que estão certas ao afirmar que drogas fazem mal. Ficar só nisso, porém, é passar uma informação de saúde ingênua e pobre. É preciso dizer como e por que as drogas são altamente prejudiciais ao organismo para que a pessoa tome uma decisão firme, bem alicerçada, e disponha-se a abandoná-las.
As evidências nos mostram que, quando se trabalha com a prevenção, a prioridade deve ser dada aos fatores de risco. Todavia, a partir do momento em que já está instalado o consumo (maconha, nos casos mais comuns), as estratégias teriam de ser bem diferentes.
ORIENTAÇÃO AOS PAIS
Drauzio – Muitas vezes os pais ficam apavorados quando encontram maconha nas coisas dos filhos. Como você orienta quem vive esse problema?
Ronaldo Laranjeira – Na verdade, maconha é a primeira droga ilícita que a pessoa consome, mas antes disso, em geral, já experimentou o álcool e o cigarro. Já não se discute mais que, quanto mais cedo o adolescente entrar em contato com a droga, maior será a probabilidade de “escalar”, isto é, de partir para outras drogas ou intensificar o uso da maconha. É muito difícil prever quem vai ou não embarcar nesse processo. Sabe-se, porém, que quantos mais amigos envolvidos com drogas ele tiver, maior risco correrá do uso tornar-se crônico.
O primeiro passo para enfrentar a situação é os pais se informarem sobre o que está acontecendo na vida dos filhos e voltarem a exercer controle mais efetivo sobre suas atividades. Em geral, esse problema reflete uma certa crise familiar. Por razões diversas, pais e filhos se distanciaram. Por isso, a estratégia básica é levar ao conhecimento dos pais o que está acontecendo com seus filhos e os riscos que eles correm.
Quanto ao adolescente, é complicado conversar sobre esses riscos. A tendência do jovem que já se envolveu com maconha é minimizá-los ao máximo. “Que mal existe em fumar um baseado por semana?” é a pergunta que muitos fazem. Acontece que, na maioria das vezes, quem começou precocemente, no período de seis meses, estará fumando um baseado por dia.
Na entrevista clínica, não dá para antever o caminho que cada um percorrerá no mundo das drogas. Quem já teve o desprazer de acompanhar um adolescente numa entrevista, tranquilizar os pais, dizendo – “Olhem, ele só está usando uma vez por semana. Essa é uma experiência pela qual ele deve passar.” – e, depois de dois anos, ver esse jovem totalmente deteriorado, traficando drogas, fica muito preocupado com o momento certo em que deve interferir. Esse é o desespero dos pais e o dilema dos profissionais: agir na medida exata da necessidade de cada caso. Nem todos precisam de tratamento, mas não se pode deixar escapar aqueles para os quais o acompanhamento clínico é indispensável.
Drauzio – Em que você se baseia para julgar se um garoto, que afirma fumar maconha a cada dois meses , representa risco de tornar-se um usuário crônico?
Ronaldo Laranjeira – É preciso estar atento a três fatores que combinados são sinais de alerta e requerem algum tipo de acompanhamento. O primeiro é atitude por demais tranquila do adolescente que considera a maconha inofensiva e destituída de inconveniências. Depois, é importante considerar a rede social em que está inserido. Os amigos com quem convive são usuários da droga? Por último, deve-se avaliar seu desempenho nas atividades cotidianas. É o caso do bom aluno até os 13 anos, que foi perdendo o interesse pela escola e não reage mesmo diante da ameaça de perder o ano.
PARANOIA ASSOCIADA AO CONSUMO DE DROGAS
Drauzio – A paranoia é um efeito terrível da cocaína. O indivíduo cheira e entra numa crise persecutória alucinante. O que leva alguém a usar uma droga sabendo que irá provocar uma sensação medonha e que nenhum prazer oferece?
Ronaldo Laranjeira – Essa é a essência da dependência química de uma droga. Primeiro aparece o efeito prazeroso e, depois, o desprazer. Com a cocaína, isso é mais intenso. Seu efeito de excitação e de prazer é imediato, ocorre em poucos segundos. Alguns minutos depois, desaparece e surgem os efeitos desagradáveis. Confrontando os dois, prevalece a lembrança dos bons momentos e a pessoa volta a usar a droga. Tive um paciente que injetava cocaína. Suas veias tinham sumido, mas mesmo assim ele não desistia. Expunha-se ao tormento de dezenas de picadas para obter um único resultado positivo que, em sua balança emocional, compensava o sofrimento anterior. Os fumantes têm comportamento parecido. Muitos, mesmo com traqueostomia, não deixam de fumar.
Drauzio - Conheci alguns que, apesar da insuficiência vascular cerebral, ficavam tontos e caíam no chão quando fumavam, mas não desistiam e logo depois acendiam um cigarro outra vez.
Ronaldo Laranjeira - É a força da dependência, um fenômeno diversificado cuja essência é a disfunção cerebral provocada por várias drogas e que se manifesta em pessoas de personalidades diferentes.

Drauzio
- A maconha também pode provocar paranoia?
Ronaldo Laranjeira – É menos comum, mas casos de paranoia também ocorrem especialmente em pessoas que já apresentaram algum problema mental. Quem tem um surto psicótico e fuma maconha, por exemplo, faz um péssimo negócio, porque se intensificarão os sintomas dessa doença já estabelecidos anteriormente.
No que se refere à cocaína, nem todos que manifestam esses sintomas desenvolverão a síndrome paranoica. No entanto, quando isso acontece, as consequências são desastrosas. Soube de um usuário de cocaína que, em crise, saiu em disparada por uma estrada, foi atropelado e morreu. Há outros que pegam uma arma e disparam a esmo.
FORÇA PODEROSA DA DEPENDÊNCIA
Drauzio – Muitos usuários garantem que a maconha é uma droga fácil de largar, que não causa dependência. Isso é verdade?
Ronaldo Laranjeira – Cada droga tem um perfil de dependência, e a maconha não é muito diferente das demais. Como já foi dito, atualmente ela está dez vezes mais forte do que era há 30 anos. Por isso, não é tão fácil afastar-se dela, principalmente se a pessoa começou a fumar na adolescência, quando ainda era um ser em formação.
O acompanhamento de usuários de maconha, no ambulatório da Escola Paulista de Medicina, sugere exatamente o contrário. As pessoas conseguem suspender o uso da droga durante alguns dias, mas a vontade fica incontrolável e elas voltam a fumar os baseados.
Drauzio – No Carandiru, examino rapazes com tuberculose que fumam cigarros de nicotina, de maconha e crack. Explico-lhes que eles não podem fumar de jeito nenhum porque seus pulmões estão doentes, muito inflamados. Na semana seguinte, eles me informam que conseguiram suspender o crack e a maconha, mas o cigarro está difícil. Isso se repete nas semanas subsequentes. Tive centenas de casos como esse, que me convenceram de que o cigarro é mais difícil de largar do que as outras drogas. Estou exagerando?
Ronaldo Laranjeira – Embora o efeito da nicotina não seja tão poderoso quanto o da maconha, é muito mais constante. Imaginemos que o fumante dê dez tragadas em cada cigarro e fume vinte cigarros por dia. Feitas as contas, num único dia seu cérebro recebeu um reforço positivo pelo menos duzentas vezes. Cada tragada é igual a uma injeção de nicotina na veia. Esse estímulo, repetido através dos anos, faz com que a dependência de nicotina seja mais poderosa do que as outras. A maconha, no momento, passa por processo semelhante. Mais disponível e mais barata, seu consumo aumentou e, consequentemente, o número de cigarros fumados por dia e os estímulos cerebrais que provocam aumentaram também. Portanto, em termos de dependência, as duas drogas não diferem muito. Pelo atual padrão de consumo, mais fácil, acessível e intenso, maconha e nicotina têm muito em comum. Por isso, não compartilho a ideia de que maconha seja uma droga leve.
Drauzio – O usuário de cocaína diz que deixará de usar a droga quando quiser. No entanto, admite que não poderá vê-la, porque entrará em desespero e a vontade de consumi-la ficará incontrolável. Como se pode explicar esse fenômeno?
Ronaldo Laranjeira – Ficar longe da droga, quando se está disposto a abandoná-la, faz parte do processo de aprendizado. No exato instante em que a pessoa vê a cocaína, seu cérebro começa a preparar-se para recebê-la e dispara um mecanismo que chamamos de craving ou fissura. Isso vale para qualquer droga. Depois que ficou dependente, é quase impossível alguém ver a droga e resistir ao desejo de usá-la. Por isso, na fase inicial do tratamento, aconselha-se que o usuário se afaste completamente de todos esses estímulos, pois ficará menos difícil lidar com o fenômeno da dependência química.

Fonte: http://drauziovarella.com.br/dependencia-quimica/dependencia-quimica/
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Clínica para tratamento de dependência química e alcoólica - http://www.clinicauplife.com.br

domingo, 27 de novembro de 2011

DEPENDÊNCIA QUÍMICA É DOENÇA DO CÉREBRO

ESPECIALISTA AFIRMA QUE DOENTE NÃO DEVE SER TRATADO COMO MAU CARATER E SIM RECEBER TRATAMENTO CONTÍNUO

Atualmente nos Estados Unidos, existem 22,3 milhões de dependentes ou usuários de drogas ilícitas ou álcool e o número de indivíduos que recebem tratamento para livrar-se do vício não chega a 20%.
No Brasil, o crack é uma das drogas que vem causando mais alarde ultimamente e desde 2009 vem aumentando o número de usuários em cidades como Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Há saída para este problema?
Em recente visita a São Paulo, a mexicana radicada nos Estados Unidos Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos Estados Unidos (NIDA), falou de seus estudos sobre o abuso de substâncias químicas defendendo que a dependência química é uma doença crônica que afeta o cérebro e deve ser tratada como tal.
Segundo a neurocientista, assim como a hipertensão, o vício é uma doença crônica que exige cuidados contínuos. “As taxas de recaídas de dependentes químicos são similares a outras doenças crônicas, como diabetes do tipo 1, hipertensão e asma, que também são caracterizadas por um grande número de recaídas pós-tratamento”, explica a pesquisadora, considerada pela revista “Time” uma das “100 pessoas mais influentes do mundo”.
Se nos EUA o tratamento do problema é feito por meio de grupos de ajuda em centros de recuperação, deste lado do Equador os programas são escassos. De acordo com Ronaldo Laranjeira, médico psiquiatra e coordenador da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e drogas da Unifesp), o sistema público não oferece um programa que ajude o paciente por um período de meses ou anos.
“Nos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), cada profissional trata seu paciente como bem entender, mas é um trabalho que precisa de uma busca ativa e o sistema público não tem essa cultura de procurar mais trabalho”, afirma o especialista. Em contrapartida, Laranjeira indica os grupos de ajuda como principais portas para a recuperação e para o apoio familiar.
Segundo Laranjeira, mesmo que a família de um dependente não seja responsável pelo uso que ele faz da substância, a colaboração dela para ajudar no tratamento é de extrema importância. “O usuário sem a família terá uma dificuldade muito maior para se recuperar”, afirma. No entanto, é difícil lidar com uma doença complexa como a dependência química e, se a família também não obtiver apoio, também pode chegar a uma exaustão emocional, física e financeira.
Mecanismo da dependência
De acordo com a especialista norte-americana, o uso repetitivo de substâncias químicas diminui a habilidade de controle do indivíduo. As drogas afetam uma área cerebral chamada córtex orbitofrontal, responsável pelas decisões que tomamos, fazendo com que ela não funcione como deveria. “Os dependentes acabam perdendo o livre-arbítrio para dizer não”, explica Volkow. Como exemplo, ela cita pacientes que têm a mesma área do cérebro afetada, mas por culpa de outro problema, como o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).
Para medir os riscos do uso de substâncias químicas pela primeira vez, a especialista ressalta a idade como um fator indispensável. Segundo Volkow, a infância e a adolescência caracterizam a época mais propícia para desenvolvimento do vício. “Durante este período, o cérebro ainda é muito ‘plástico’: possibilita que você aprenda mais rapidamente, mas que se torne dependente químico mais rapidamente também”.
Entretanto, não é apenas a “plasticidade” do cérebro que colabora para o desenvolvimento do vício. A neurocientista afirma que fatores genéticos e ambientais também influenciam. E bastante. “O uso frequente de drogas afeta o cérebro e ocasiona o vício, mas quanto maior a predisposição genética e o número de eventos estressores na adolescência, maior é a possibilidade dele existir”, explica.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A LEGALIDADE DA INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA PARA DEPENDENTE QUÍMICO

Olá,
Gente, tenho recebido alguns e-mails pedindo informações e até mesmo questionando a questão da internação involuntária ou compulsória para dependentes químicos. A maioria das dúvidas, refere-se a questão da legalidade deste tipo de procedimento. Realizei várias pesquisas para poder trazer uma informação segura, que possa ajudar a família no processo de tomada de decisão. Nas minhas buscas, encontrei o excelente texto, que a seguir, reproduzo na íntegra.

O tema tem sido debatido por vários segmentos da sociedade, os ativistas de direitos humanos sustentam que a internação compulsória fere cláusula pétrea, o direito à liberdade do cidadão, consagrado no artigo 5º, da Constituição Federal.
Por sua vez, os médicos sustentam que internar uma pessoa contra a sua vontade caracterizaria crime, denominado como cárcere privado.
A meu ver, as duas correntes acima estão equivocadas, o princípio constitucional que deve ser protegido pelo Estado é o direito à vida, a mais importante das cláusulas pétreas, o maior bem que um ser humano possui. No caso específico dos dependentes químicos, em razão da dependência às drogas, em sua maioria os usuários perdem o discernimento, não mais conseguem decidir o rumo de sua vida. É de conhecimento público que o uso contínuo de drogas causa a morte do usuário, assim, acredito que caracterizada esta situação é dever do Estado interferir na vida daquele cidadão e determinar sua internação para tratamento, o poder público tem o dever de salvar a vida daquele cidadão e devolver-lhe a dignidade, sua cidadania.
Algumas pessoas têm defendido a tese da criação de uma legislação que autorize o poder público efetuar a internação compulsória de dependentes químicos para tratamento.
Totalmente desnecessário, o ordenamento jurídico brasileiro possui o Decreto-Lei 891, de 25 de novembro de 1938, em plena vigência, que regulamenta a fiscalização de entorpecentes, legislação que reconhece que o usuário de drogas é doente, que é proibido tratá-lo em domicílio e cria e regulamenta a figura da internação obrigatória de dependentes químicos, quando provada a necessidade de tratamento adequado ao enfermo ou quando for conveniente à ordem pública.
Para liquidar a questão, transcrevemos os artigos 27, 28 e 29, da referida legislação, in verbis: “Artigo 27. A toxicomania ou a intoxicação habitual, por substâncias entorpecentes, é considerada doença de notificação compulsória, em caráter reservado, à autoridade sanitária local.”
“Art. 28. Não é permitido o tratamento de toxicômanos em domicílio.”
“Art. 29. Os toxicômanos ou os intoxicados habituais, por entorpecentes, por inebriantes em geral ou bebidas alcoólicas, são passíveis de internação obrigatória ou facultativa por tempo determinado ou não.
§1º. A internação obrigatória se dará, nos casos de toxicomania por entorpecentes ou nos outros casos, quando provada à necessidade de tratamento adequado ao enfermo, ou for conveniente à ordem pública. Essa internação se verificará mediante representação da autoridade policial ou a requerimento do Ministério Público, só se tornando efetiva após decisão judicial.”
Quando se tratar de usuário menor de idade, a internação deverá ser requerida judicialmente pelo Ministério Público, como medida protetiva à criança ou adolescente, sempre utilizando como base legal o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/90).
Todavia, infelizmente, no caso da Cidade de São Paulo, não há vagas suficientes nos estabelecimentos públicos adequados ao tratamento de dependentes químicos, nas redes do serviço de saúde pública estadual e municipal.
Os órgãos públicos da área de saúde têm obrigação legal de incrementar programas públicos de atendimento aos usuários e dependentes de drogas, todavia, é incontestável a negligência do poder público nesta obrigação. O Estado deveria investir de forma direta na criação de clínicas públicas para tratamento de dependentes químicos e de forma indireta na destinação de recursos às entidades da sociedade civil, sem fim lucrativo, que atuem neste seguimento.
Por fim, entendo que a internação compulsória dos dependentes químicos é totalmente legal, não fere direitos fundamentais do usuário, na verdade busca preservar e resgatar a dignidade destes cidadãos desprezados pela sociedade e esquecidos pelo poder público.

Fonte: http://www.conjur.com.br/2011-ago-05/internacao-compulsoria-dependentes-quimicos-constitucional  Escrito Por Arles Gonçalves Junior Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da OABSP e Consultor Jurídico do Programa Questão de Justiça. Revista Consultor Jurídico, 5 de agosto de 2011

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A DEPENDÊNCIA É UMA DOENÇA OU UMA OPÇÃO?

Um filósofo muito importante afirmou certa vez: "o homem está condenado a ser livre." Ele quis dizer que o homem é naturalmente livre, mas essa liberdade o condena a tomar decisões, fazer escolhas, opções pelo resto da vida. Quanto mais escolhas fazemos e nos responsabilizamos por elas, mais livres seremos. Quando mais culpamos os outros por nossas escolhas erradas, menos autônomos e mais dependentes do outro ficamos.

Essa pergunta traz para perto a Filosofia e a Medicina e mostra como a dependência de drogas pode ser objeto dos mais variados campos do conhecimento.

Aqueles que decidem consumir uma droga estão fazendo uma opção, uma escolha. É claro que muitos fatores contribuíram para que tal escolha se desse (as angústias da vida, a simples curiosidade, a influência de amigos, a vontade de buscar um jeito novo de divertir...). Mas, a escolha, no final, foi da pessoa.

Continuar usando drogas também é uma opção, mas cada vez menos... Isso porque o organismo vai se adaptando à presença da droga. Vai havendo modificações no cérebro. Quando o indivíduo fica sem a droga, passa a se sentir muito mal, desconfortável, irritado, deprimido, ansioso. O dependente acha que o único alívio possível é a continuidade do consumo. Conforme a dependência vai se instalando, a pessoa passa a abrir mão de coisas que antes eram muito importantes para ela. É o momento em que aparecem as brigas e discussões com a família, a piora no desempenho escolar, a venda de objetos para comprar drogas. Tudo passa a girar em torno do consumo de drogas.
A partir desse ponto, o indivíduo não consegue mais ficar sem usar drogas. Não há mais OPÇÃO: o indivíduo não escolhe se vai usar drogas ou não. A doença lhe tirou essa liberdade. QUALQUER DOENÇA PSÍQUICA CONSISTE ACIMA DE TUDO NA PERDA DA LIBERDADE DE ESCOLHA. Portanto, a dependência não é uma opção. É uma condição patológica (uma doença) que tira a liberdade do indivíduo de optar!
Perceber a presença da doença e se responsabilizar pelo tratamento é o primeiro passo em direção à recuperação. É preciso escolher a mudança e buscar ajuda para efetiva-la. Não resolve olhar o passado para achar um culpado. Deve-se pensar no futuro! Não existem culpados pela situação. Mas pode haver pessoas comprometidas com o processo de cura (o próprio dependente, sua família, os amigos, os profissionais da saúde). Afinal, se temos que estar condenados a alguma coisa nesse mundo, que seja apenas à liberdade!

Fonte: Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas) / NEAD - Núcleo Einstein de Álcool e Drogas do Hospital Israelita Albert Einstein

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O QUE PODE ATRAPALHAR A PARTICIPAÇÃO DA FAMÍLIA NO PROCESSO DE RECUPERAÇÃO

Alguns problemas aparecem no momento em que a família resolve participar do tratamento:

1. O dependente sabe mais sobre drogas do que a família. A família é pouco informada sobre a questão das drogas, em especial as drogas proibidas (ilícitas). A pouca informação que a família possui vem dos meios de comunicação e de outras pessoas. Geralmente são distorcidas e sensacionalistas. O assunto é tratado de modo assustador. As drogas são apresentadas como algo demoníaco. Isso deixa os pais e filhos longe de um entendimento. Cria-se um clima de guerra, tudo é muito terrível e ameaçador. A família deve se informar primeiro! Além disso, não deve ter medo de dizer ao dependente que não entende do assunto. Afirmar algo sem sabe o que se está dizendo, aumenta ainda mais a distância e a chances de diálogo.

2. A família fica sem saber qual a sua função. As drogas provocam mudanças importantes na vida familiar. Pais estão acostumados a serem os mentores dos filhos. De repente os filhos entram num campo desconhecido. Passam saber que coisas que os pais não tem a mínima noção. Quando o dependente é um dos pais, os filhos vêem-se em uma situação igualmente confusa: como interferir na vida daquele que os criou e ensinou como as coisas deveriam ser? Sem saber o que fazer com sua autoridade (abalada), muitos optam pelo autoritarismo. Isso só deixa o relacionamento ainda mais deteriorado.

3. A família já tinha problemas muito antes da droga aparecer. Famílias com problemas podem se constituir num fator de risco para o aparecimento do consumo abusivo de drogas entre seus membros. Não que a desestrutura seja a única causa ou a causa mais importante, mas pode contribuir. Desse modo, o tratamento da dependência passa pela avaliação da família e pela necessidade de seus membros também procurarem orientação e tratamento. Estudos mostram que vítimas de maus tratos, a presença de consumo problemático de drogas entre os mais velhos, violência, ausência de rotina familiar e a dificuldade dos pais em colocar limites nos filhos aumenta o risco do surgimento de dependência entre os seus membros. Desse modo, a cura passa a ser responsabilidade não só de dependente, mas de todos que o cercam.

4 . A família culpa o dependente ou se culpa. Apontar culpa é exercer um julgamento. O veredito de um julgamento é uma conclusão. Não precisa ser interpretado, entendido. Deve ser cumprido e pronto. Não há mais o que fazer... Esse é um grande erro que a família comete. Se os pais ou os filhos se culpam ou culpam alguém pelo que fizeram ou deixaram de fazer no passado acabou-se a possibilidade de seguir adiante. Ninguém tem culpa da situação, mas todos podem assumir responsabilidades para solucionar o problema! A presença desse espírito por parte de todos durante do tratamento melhora as chances de recuperação do dependente. Além disso é uma grande oportunidade para sanar as dores e os ressentimentos que se acumularam debaixo do tapete e que agora, apesar de volumosas, ninguém quer ver.
5. Falta uma figura neutra. Por tudo o que já foi dito anteriormente, a análise do problema pela família e pelo dependente encontra-se distorcida. Muitas vezes pais e filhos (não importando quem seja o dependente) confundem a inabilidade de ambos em lidar com o problema, com as dores e ressentimentos que rolaram no passado. Qualquer família erra, deixa de fazer ou mesmo traumatiza seus membros. Por outro lado também lhe dá habilidades e compensações para minimizar ou superar essas perdas. Esse não é um caminho frutífero. Se a conversa não é mais possível, ou se só é possível dessa maneira, é sinal que chegou a hora de buscar uma figura neutra. Ela pode ser o profissional capacitado, que se incumbirá de dar o tom do tratamento e ouvirá os dois lados. Antes de chegar ao tratamento, outras figuras neutras importantes podem ser evocadas para facilitar o processo: um tio respeitado por todos, um amigo, o líder da comunidade, o padre, o pastor, enfim pessoas que gozem da confiança de todos os membros da família.

"Errar, errar de novo, errar melhor"A família no tratamento significa buscar um novo elo entre os seus membros. Um novo casamento, uma nova criação dos filhos, uma nova imagem do pai e da mãe. O caminho novo a seguir é incerto e por isso sujeito a erros. Muitos erros surgirão. Impossível não errar dentro de uma situação tão complexa como essa. Aliás só não cometem erros aqueles que nada tentam... A todo instante tais erros precisam ser conversados, discutidos a fundo entre os membros a equipe profissional que os assiste. Tratar o dependente não se resume à busca pela abstinência. É também a construção de um novo estilo de vida. Para o dependente e para a família.

Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas) / NEAD - Núcleo Einstein de Álcool e Drogas do Hospital Israelita Albert Einstein